“Coloque uma banda de música nas ruas. O povo a seguirá para a festa ou para a guerra.” – Napoleão Bonaparte

Ze Helder-1694Essa frase ficava em pequeno quadro pendurado na porta da sala de aula da sede da tradicional Sociedade Musical Eduardo Tenório, de Cachoeira de Minas. Nesse lugar eu, assim como centenas de outras crianças da cidade tiveram suas primeiras lições de música com o Zé Luís, que além de professor e presidente da banda, era também dono de uma serralheria. Depois de algumas aulas de solfejo comecei com a chiquinha (ou sax horn em si b) para depois passar para o clarinete. Esse fora presenteado pelo tio Zi, exímio sanfoneiro que tocava qualquer coisa que lhe dessem, inclusive assobiava magistralmente. Era o tio mais talentoso da família e uma das minhas maiores referências musicais.

Com a banda, aos dez anos de idade tive uma das melhores experiências como músico. Entramos todos em um busão para ir tocar em Itajubá, a sessenta quilômetros dali. Pela primeira vez eu saía da cidade pra tocar – e sem minha mãe.

Depois minha família se mudou para Itajubá, parei com a banda e com o clarinete, mas conheci o Luciano Daniel que me ensinou a tocar violão. Logo em seguida me chamaram pra uma banda, onde comecei a tocar baixo. Eu estava com 15 pra 16 anos e nessa etapa foram minhas primeiras experiências de tocar na noite. Cheguei a acompanhar a Ceumar, Márcia Salomon, além de muitas outras gigs memoráveis com Omar Fontes, Rafael Toledo, grupo Telhado, e minha banda de rock que era a Blues Corporation.

Então resolvi estudar no Conservatório de Pouso Alegre. Contrabaixo acústico. Vim a me formar e me tornei professor nessa querida escola. Foram oito anos ensinando no CEMPA (Conservatório Estadual de Música de Pouso Alegre). Eu tocava na noite, tinha banda de rock, fazia casamento, baile, o que pintasse pra defender uma graninha. E ainda me formei em Comunicação Social pela FAFIEP. Algum tempo depois eu ainda me formaria em um segundo curso superior, Licenciatura Plena em Música pelo Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro.

No CEMPA, certo dia o Nikolaos, meu grande amigo, me mostrou um instrumento que estava esquecido no almoxarifado da escola: uma viola Del Vecchio. Foi um divisor de águas. Passava dia e noite agarrado com aquele instrumento, vendi todo meu equipamento de baixista e entrei de cabeça. Isso foi em 1999.

A viola permitiu que fluíssem as músicas que eu sempre tentava fazer, mas eu achava que não tinha jeito pra compor. Então fui atrás de um professor. Ninguém menos do que Ivan Vilela, que se tornaria meu grande amigo desde o primeiro contato.

Em 2002 nasceu minha filha Helena e gravei meu primeiro CD com o grupo Orelha de Pau. Éramos eu, Euler Ferreira e Geraldo Jr. e com esse trabalho fizemos muita coisa na TV, muitos shows e festivais. Depois de um hiato de muitos anos voltamos a fazer alguns shows. O Orelha de Pau nunca foi esquecido pelos fãs.

O ano de 2003 foi muito intenso pra mim. Depois do fim do meu primeiro casamento, tive uma reaproximação com a família de meu pai (que morreu antes de eu completar dois anos de idade) e com a cidade de Pedralva. Aquela gente e aqueles lugares tão queridos foram a inspiração para meu primeiro disco solo. A Montanha foi gravado em Pedralva e produzido por Diovani Bustamante.

Conheci a excepcional cantora Dani Lasalvia. Foram muitos shows juntos, além de ela me aproximar do pessoal de São Paulo, inclusive ela me apresentou a meu parceiro Ricardo Vignini.

O Ricardo é dono do selo Folguedo, dedicado à música de viola. Comecei a gravar meu segundo disco solo com ele. No Oco do Bambu seria lançado em 2009, e durante o processo de gravação começamos a germinar o que seria nosso maior sucesso: o duo Moda de Rock. Esse disco causou um estardalhaço, viajamos por todo o Brasil, fomos tocar nos Estados Unidos, Argentina, Canadá e México. Fizemos um DVD com participações de Pepeu Gomes, Kiko Loureiro, Robertinho de Recife, Marcos Suzano, Edgard Scandurra, Andreas Kisser e Os Favoritos da Catira.

Fizemos em 2012 o disco Matuto Moderno 5, essa sensacional banda em que eu faço parte desde a saída do Alex Mathias. Com um som pesado firmemente alicerçado em raízes caipiras, o álbum Matuto 5 foi inteiramente gravado em Pedrão, bairro rural de Pedralva, na Chácara Vô Zezinho, propriedade de minha família.

Em 2015 lancei Assopra o Borralho, com participações de Alzira E  e mais um bocado de gente bacana que me ajudou a fazer esse trabalho. Com Alzira E tive a honra de fazer um show no projeto Êta Nóis, junto com Lucina, Ivan Vilela, André Rass, Paula Pi e grande elenco, na Praça do Patriarca, centrão de São Paulo.

Bem, faltou dizer que continuo professor, desde 2006 no Conservatório Municipal de Guarulhos, onde também já toquei com a Big Band e a Orquestra Jovem no Teatro Adamastor. É o segundo curso de viola que eu criei, o primeiro foi em Pouso Alegre. E também vivo feliz com minha querida Mariana e o Francisco, que também adora música.