Seu BrasileuComo violeiro, uma das coisas que mais importam pra mim é reverenciar os mestres. E graças a Santos Reis eu tenho muitos. O maior certamente é Seu Oliveira, meu grande amigo que vive em Guarulhos e é uma das pessoas mais incríveis que já conheci, cuja vida daria um bom livro. Esse está vivo e em plena atividade, graças a Deus. Outro que nos deixou recentemente foi o genial Índio Cachoeira, o maior de todos os violeiros que já vi, e com quem felizmente tive tempo de nutrir uma grande amizade. Além do Índio Cachoeira, há pouco tempo presenciei a passagem desta pra melhor de outro mestre da cultura popular, seu Moisés, irmão de seu Oliveira, que deixou a Folia Mensageiros de Santos Reis desfalcada. Os Reis Magos Balthazar, Belchior e Gaspar devem precisar muito dessas almas lá no plano onde vivem. Acontece que, em Pouso Alegre, cidade onde tenho minhas raízes e escolhi pra viver com minha família, tivemos nesse fim de semana a maior perda de todas: Seu Zé Brasileu.

Eu esperei passar alguns dias pra escrever isso, em respeito ao luto da família, em especial de meu amigo Rafael Huhn, neto de seu Zé Brasileu. Rafael se orgulhava demais de seu avô folião, e valorizava profundamente a tradição que seu Zé defendia com profunda devoção. Estive prestando minhas condolências ao Rafael no velório do seu Zé Brasileu, é muito triste ver a despedida de alguém tão importante para a cultura popular como foi o vô Brasileu que partiu aos 91 anos, tendo sido folião por longos 88 anos.

Mas parece que para a atual gestão municipal, não aconteceu nada de importante.

Nenhuma menção à morte de Seu Zé Brasileu. Nenhuma homenagem, nenhuma lembrança. Não que seu Zé se importasse. Como eu convivo com esses mestres há um bom tempo, sei que eles levam seu ofício por devoção. Cantam folia para Santos Reis, não para serem reconhecidos por um governo transitório, que amanhã não estará mais aí. Levam seu estandarte de foliões e mestres de cultura popular por pura e sincera devoção, em perfeita consonância com o que diz o Bhagavad Gita: “Tua ação é seu privilégio nesse mundo, e não colher os frutos dessa ação.”

Aliás, o Rafa foi certamente o cara que, na função que o voto popular o colocou como vereador e como Secretário de Cultura, um dos caras que mais contribuiu para a cultura de Pouso Alegre. Sua gestão foi um período inesquecível pra nós que vivemos de bens culturais. Acontece que, no giro da história, o PT passou a ser um partido maldito e isso esbarrou no prestígio do Rafael, que não se elegeu no último pleito para continuar seu mandato.

Bem, esse vaivém da política faz parte do processo, e pra dizer português claro, eu quero que se foda essa porra toda. Mas fico extremamente chateado de constatar que existe um ranço desse processo de transição de governo que impede que o poder público reconheça publicamente a grande e inestimável perda de um mestre de cultura popular. Que vil mesquinharia impede que seja publicada uma nota, uma manifestação qualquer, uma homenagem, enfim, tudo o que pra Seu Brasileu menos importa agora, pois ele certamente foi recebido no tapete vermelho do plano espiritual onde os grandes mestres devotos têm seu lugar garantido. Mas pra nós que ficamos resta protestar: quando é que o poder público vai deixar as detestáveis picuinhas de lado para render o devido respeito a perda de um mestre de cultura popular. Ou vão esperar que todos morram para fazer uma sessão extraordinária da câmara municipal onde hipocritamente vão fazer um frio discurso e colocar um nome mais frio ainda numa placa de rua ou coisa parecida. Antes que ponham essa horrível intenção em prática, se é que o farão, queria dizer: Um mestre folião não precisa disso!

Nenhuma menção à morte de Seu Zé, fora a que foi publicada no “Cultura não é Perfumaria” e copiada no “Minas em Foco”. Mas nenhuma manifestação oficial de nosso poder público.

Espero sinceramente que eu esteja errado a respeito do ranço político (embora eu tenha certeza de que não estou errado!) Mas é realmente triste constatar que as pessoas que ocupam o poder municipal nesse momento não conseguem separar esse joio do trigo.

Espero que essa seja a última grande perda de um mestre a passar despercebida. Pois o legado de pessoas como seu Zé é cada vez mais raro. E se não valorizamos esses mestres, estamos nos rendendo à mediocridade e ao imediatismo reinante no mundo. Exemplos como o de Seu Zé não podem ser em vão.

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