Faiança

Faiança

Em um poema de seu sensacional livro Magma, João Guimarães Rosa cunhou a expressão “faiança das lagoas”. Faiança é um tipo de cerâmica delicadíssima e de grande beleza, como a superfície de uma lagoa limpa com seus reflexos de céu azul. A belíssima metáfora serviu de inspiração para uma música gravada no meu disco No Oco do Bambu (2009), parceria minha e da querida cantora e compositora Dani Lasalvia. Faiança conta a história de um beija flor.

Esse bichinho tinha um impressionante hábito. Bastava eu chegar à Chácara Vô Zezinho (lugar tão especial de Pedralva onde gravamos o disco Matuto Moderno 5), eu já avisava a quem estivesse comigo, que assim que a janela da cozinha fosse aberta entraria um beija-flor, que sem nenhum receio de quem estivesse ali, voava por sobre as cabeças e acabava pousando em uma pequena boneca de feltro (na verdade uma dessas luvas de tirar coisas do forno) que ficava dependurada num canto da cozinha. Eu dizia que aquela menininha estampada na luva era seu grande amor, tamanho o fascínio que ela parecia exercer sobre a linda criaturinha alada. Essa cena se repetiu muitas vezes, e não só eu, mas muitos amigos presenciaram isso. Era uma coisa linda de se ver, um beijaflorzinho apaixonado!

Mas como toda história, essa também estava inexoravelmente presa à máxima taoísta: depois de um repouso Yin vem um ímpeto Yang. Acontece que minha casa foi assaltada. Fiquei sabendo e me dirigi pra lá, sabendo a cena deprê que eu encontraria. Mas não imaginava que a bordoada seria tão dolorida. Nada de valor foi roubado, só uma roçadeira à gasolina. Mas muitas coisas de imenso valor sentimental se foram pra nunca mais voltarem. Entre elas, os quadros originais do artista pedralvense Paulinho Faria, que foram feitos sob minha encomenda para a capa do meu disco A Montanha. Coisas do meu pai, um relógio suíço que não funcionava mais, mas que eu guardava com imenso carinho, e outras lembrancinhas do meu velho que morreu em 1975. E até uma violinha meia regra, marca Tranquilo Gianinni, de cravelhas, que devia ter mais de 50 anos de idade. E entre as coisas reviradas com aquela energia horrível que só quem já teve a casa assaltada conhece, fui me dirigindo à cozinha. Lá me deparei com a janela com o vidro estourado pelos ladrões. Por aquele buraco entrara meu velho conhecido, o beija-flor. Só que ele não achou jeito de sair, e aos pés da sua amada estava aquele pequeno corpinho hirto, frio de morte havia várias horas.

O choro que esta preso à garganta até então desatou compulsivamente. E eu achei que meu amigo beija flor merecia um sepultamento digno. Enterrei-o aos pés da paineira grande, junto com sua amada boneca de feltro.

Meses depois desse episódio eu tinha os primeiros versos de Faiança escritos com parte da melodia. Em um dia muito especial naquela mesma cozinha, contei a história pra Dani e mostrei o que eu havia escrito. Ela imediatamente pegou um papel e terminou a letra. Cantarolamos o resto da melodia. Depois escrevi o arranjo, com quarteto de cordas e uma viola braguesa, que a Dani trouxera de Portugal pra mim.

Essa música já nascera especial pra mim, mas na finalização da mixagem, ouvi do Ricardo Vignini, que estava produzindo o disco, uma coisa também pra lá de especial. Ele disse, num momento em que estávamos breacos ouvindo a mix do disco, essas palavras: “eu não sou de falar pra qualquer um, mas essa música é uma das coisas que eu mais me orgulho de ter gravado no meu estúdio”. Eu sei que meu amigo não falaria isso à toa.

Obrigado, Dani Lasalvia, pela parceria. Obrigado, Guimarães Rosa. Obrigado, meu querido amigo beija-flor.

 

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