FAKE

downloadDe uns tempos pra cá tenho percebido como sou chato e ranzinza com um bocado de coisas. Herança de família. Sabem do Érico Veríssimo, o famoso romance O tempo e o vento? Pois é, quando ele descreve a família dos Terra eu identifiquei imediatamente a família Machado, da qual faço parte. Aquela coisa sisuda, de pouca conversa. E dentre todas as coisas que me tornem sisudo e azedo que nem vinagre, tem algumas que me irritam mais profundamente que outras. Televisão certamente é uma delas. Novela da Rede Globo, então, tenho pavor! Mas aprendi há algum tempo, mais precisamente durante uma viagem a Los Angeles, o significado de uma palavra que explicou quase tudo pra mim: FAKE. Explico:

De acordo com o dicionário Michaelis, fake significa:
1 fraude, algo ou alguém que é falso, falsificação. 2 impostor, charlatão, farsante. he’s a fake / ele é um farsante. vt+vi 1 falsificar, imitar falsificando. 2fingir, disfarçar. 3 improvisar. adj Amer falso, falsificado, afetado. a fake passport / um passaporte falso

Pois é. Los Angeles é uma cidade fake. Você vai a um restaurante italiano, com toda a decoração típica, parece que tem um imigrante italiano que é dono e aquele lugar tem 30 anos de tradição. Não tem, é fake. Os caras tem a manha de fazer igualzinho um lugar original, só falta a essência. Ou seja, falta o principal.

Pois é. Antes de conhecer Paris, um amigo me falou: “você não pode deixar de ir no Lido, em Champs Élysées, tem um show de CanCan, as mulheres ficam com os peitos de fora.” Fake. Os franceses acham aquilo uma merda, é só pra turista. E caro pra caralho! (como quase tudo que é fake). Felizmente não segui esse conselho e mergulhamos na vida da Cidade Luz, eu e Mariana, aproveitando o melhor da extraordinária cultura francesa.

Pois é. Outro dia encontrei uma colega do trabalho, que andando comigo a caminho do Conservatório de Guarulhos, comentou: “Nossa, acabei de ver duas meninas agarradas no ponto de ônibus, cheias de intimidade.” Eu falei “Ora, se não estão incomodando ninguém, qual é o problema?” E ela imediatamente e já exaltada: “A mim, incomoda!” A primeira coisa que eu pensei foi nas novelas mostrando homossexuais nessa mesma intimidade, em horário nobre, sob o falso pretexto de que está contribuindo para a aceitação das diferenças. Fake. Nada mudou na atitude das pessoas, a TV só se apropria da hipocrisia humana, mais uma vez. Se está na TV, está sendo aceito. Será?

Pois é. Ainda falando de TV, mais um colega do Conservatório de Guarulhos me falou surpreso outro dia: “Nossa, descobri que tem um instrumento no Mato Grosso chamado viola de cocho, que só tem lá. Porque eles não mostram isso na televisão, pra todo mundo saber que existe?” Minha resposta veio que nem pólvora atingida pelo fogo: “Pra que mostrar? A viola de cocho existe muito antes dessa bosta de televisão, e vai continuar lá porque as pessoas amam e se dedicam a ela. Você quer conhecer siriri e cururu, vá ao Mato Grosso, mas pelamordedeus, desligue a TV, ela não faz toda essa diferença na sua vida.” TV é o templo do Fake.

Pois é. Um dia estávamos em um show do Matuto Moderno em Taubaté, tocamos antes do Sérgio Reis. Na hora do show do Serjão, eu e o Edson Fontes estávamos conversando sobre seu pai, o seu Oliveira. Pra quem não sabe quem é, não vou me dar ao trabalho de explicar. Desligue a TV e descubra quem é Seu Oliveira. O Edson disse assim: “Eu nem paro pra pensar em quem é meu pai, senão eu piro. Isso aqui (referindo-se ao show do Sérgio Reis) não quer dizer nada pra ele”. Seu Oliveira definitivamente não é fake.

Pois é. Quando alguém surta total e sai picando bala em todo mundo, como acontece de vez em quando em vários lugares do mundo, eu sempre penso: “o cara conseguiu seus minutos de fama. Conquistou seu momento fake na TV.” Ser Fake não é tão inofensivo assim. É o grande mal do mundo moderno.

Pois é. Ghandi, ao voltar da África do Sul, discursou certa vez em um palanque para os indianos, depois de ter viajado por todo o interior da Índia. Seu discurso começou mais ou menos assim, se é que me lembro: “A Índia está intacta. As pessoas vivem aqui como vem vivendo há centenas de anos. Essas pessoas que hoje aqui discursaram estão atrás de algumas linhas nos jornais ingleses.” Nada pode exemplificar melhor o fake do que isso.

Pois é. Voltando à minha chatice inicial, o rabugento aqui vai seguindo seu rumo. E não sei como terminar esse texto. Aliás, concluir é a coisa mais fake que há, o mundo é inconcluso! Tchau procêis!

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