Aleijadinho95Tenho um bom amigo na Pedra Branca, que rende muitas histórias deliciosas, entre elas uma famosa, que tem a ver com o título escolhido pra esse post. Mas não vou contar agora, só quero deixar o gostinho. É que o papo de hoje pretende ter continuação. Vai chegar o momento de ter muitas histórias com o Zé da Pedra Branca, com o Guimarães Rosa, com o Ghandi (o gato, irmão da Luna, que vive aqui em casa), com o moleque de pé sujo de outrora, com o senhor levemente grisalho de hoje e o moleque de bengala de amanhã. Mas hoje só queria expor o porquê da escolha do título desse post: “Falaro…”
Sabe aquelas situações de saia justa, quando tudo o que você quer é tirar o “seu” da reta? Pois foi numa dessas situações que surgiu a expressão “falaro”. É uma palavra… palavra não, um verso da música do sotaque sulmineiro, que omite notas do falar tradicional para uma fluência diferente, que acompanha as curvas das montanhas se desviando aqui e ali, deixando pra trás tanta eloquência desnecessária. Pra que dizer “vamos ao supermercado” quando se pode dizer “amsmercá’” Outro dia um primo paulistano que tem fazenda me apontou um “calipá” no alto do morro e disse: “Tá vendo aquele eucaliptal?” Deu um bug no meu HD. Jamais havia ouvido essa palavra.
Mas o fato é que quando se diz “falaro”, se esvai no ar toda a obrigatoriedade do minimamente verossímil na narrativa. O que é uma verdadeira delícia para um criador/escritor/compositor. Por isso resolvi adotar o falaro pra fazer minha arte. Toda arte tem um pouco de “falaro”. No filme Eu Maior, na parte da entrevista com a cineasta Laís Bodanzky, ela narra um período de sua vida quando ela teve o maior grilo de estar contando a sua visão dos fatos quando fazia cinema, já que sua visão é limitada como a de qualquer outra pessoa. Depois ela conta do processo espiritual que ela passou até aprender a ligar o “falaro”.
O artista é feliz por poder dizer “falaro” constantemente. O cientista não pode fazê-lo. A ciência abandonou o “falaro”, tão presente no saber mitológico. o jornalista tampouco. O religioso então… é preciso se cercar de certezas pra sobreviver em certas profissões. Mas a real é que todas as certezas tem um fundo de “falaro”. O dinamismo do mundo e todos os seus processos exigem um pouco de “falaro”. Quer um exemplo? O ano solar.
A volta da Terra em torno do sol dura 365 dias. E 6 horas. Porquoi ces six heures? Não dava pra ser exato, pra gente não ter que fazer essa “gambiarra” que é o ano bissexto? Meu amigo Diovani nasceu dia 29/02, portanto ele só faz aniversário de 4 em 4 anos! É justo um troço desses? Mas essa é a porção “falaro” da natureza. Há uma margem inexplicável que propicia o movimento, o desenrolar das coisas. E escapa da tola tentativa de criar certezas, que nós nos esforçamos estoicamente por fazer, às vezes.
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.
Não é verdade? Falaro…

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