Gilberto bem de perto

Acabo de terminar de ler a biografia de Gilberto Gil. E agora amo esse homem mais do que já amava. Êita baianinho arretado! Ler biografias é uma coisa engraçada, eu fico com dois sentimentos principais: que toda aquela história do sujeito passa a fazer parte da minha, o que é bem real, pois a gente incorpora coisas de pessoas que admiramos, numa bem produtiva antropofagia. E a outra sensação é que tudo aquilo durou o tempo que eu levei pra ler o livro, e não o curso de uma vida. Gil, ou Beto, como sua mãe o chamou até o fim de sua longa vida, é capaz de provocar muitas reflexões. Ou fazermos embarcar nas dele, que são pra lá de lindas. Como aquela em que ele conta que, aos dez anos de idade, morava próximo da linha do bonde. Este podia ser visto pela porta da frente da casa, e em seguida pela porta dos fundos já fazendo a curva pra desaparecer. O exercício diário do menino era ver se o bonde aparecia lá atrás, pra ter certeza de que ele existia da mesma maneira que existia na frente da casa. E ainda ficava pensando se o bonde continuava existindo depois de sumir da sua vista. E o Gil me fez lembrar de como isso é natural pra uma criança, essas preocupações existenciais que vão sendo sufocadas pela vida adulta e definitivamente esquecidas. Pablo Picasso disse certa vez que levou a vida inteira pra reaprender a pintar como criança. Tenho certeza que Gilberto Gil já descobriu há tempos a fórmula pra compor como criança, com uma alegria ingênua que nem a seriedade de um mandato de ministro conseguiu tirar. Alguém que vê o mundo com olhos orientais. Se oriente, rapaz!

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