O sul

 

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Fiquei algum tempo sem escrever no blog, viajando e tocando muito, graças a Deus. E justamente em uma dessas viagens conheci o Caca Ferrer, de Dom Pedrito – RS, terra do percussionista do Matuto Moderno, o André Rass. O Caca gostou muito dos minhas crônicas, e sugeriu que eu não deixasse de fazê-las, por isso estou aqui prontamente atendendo o pedido desse meu novo amigo gaúcho. E resolvi falar dessa terra que eu amo muito e tive oportunidade de conhecer mais profundamente depois de uma turnê com o Moda de Rock no último mês.

Antes de conhecer o Rio Grande do Sul, eu havia lido muito sobre o folclore local, graças a uma preciosa coleção sobre o folclore brasileiro herdade de meu pai, além de ter me deliciado com a obra de Érico Veríssimo (aliás passei em frente à cidade de Cruz Alta, terra natal do escritor). Esse imenso estado brasileiro foi palco de intensos conflitos desde a época do Brasil colônia. As sucessivas e intermináveis guerras marcavam os filhos varões desde seu nascimento, já nasciam para pelear. Ora eram espanhóis brigando com portugueses, ora estes em paz entre si e brigando com índios missioneiros, ora brasileiros separatistas brigando na guerra dos Farrapos, e mais a guerra do Paraguai. Tudo teve palco no Rio Grande do Sul. A parte das reduções jesuíticas à margem do rio Uruguai é um capítulo especialmente interessante. Na missão de São Miguel (onde começa o romance o Tempo e o Vento) ainda existem as ruínas, testemunhas de muitas histórias. Como a M’boi guaçu de São Miguel, que aterrorizou a população restante de mulheres e crianças da redução, tocando freneticamente o sino até quando uma mãe desesperada lhe oferecia uma criança para lhe saciar a fome. E a do índio Sepé Tiaraju, que deu um grito de amor à sua terra ao organizar a resistência contra a expulsão de seu povo da região das missões.

Entre tantas histórias, uma que me fascina muito é a da Teiniaguá. Uma princesa moura encantada que toma a forma de uma lagartixa com uma pedra vermelha reluzente no meio da testa, como um rubi. Teve até um sacristão que caiu em desgraça por render-se aos encantos da Teiniaguá. Érico Veríssimo comparou a Luzia, personagem de seu romance, com essa ardilosa lagartixa, pelas suas características típicas da mulher burguesa do século XIX: prisioneira das convenções sociais que a tornavam um ser mesquinho, capaz das piores malinezas por trás da aparência de uma pessoa de boa índole.

A m’boitata também nasceu no sul. O Paulo Freire, em seu ótimo Jurupari, um de seus livros mais recentes, ressuscita a m’boitata – que originalmente frequentava os locais com carniça de animais mortos em um dilúvio épico no começo dos tempos (curioso como um dilúvio devastador consta na cosmogonia indígena, assim como no cristianismo – talvez por influência deste, ou não), só que o Paulo Freire colocou a m’boitata em meio à plantações de soja. Excelente mote pra reviver um mito e ao mesmo tempo criticar a monocultura que se têm praticado no Brasil.

Mas além da história, belas paisagens. Só quem já viu aquelas coxilhas intermináveis no horizonte entende a comparação de Euclides da Cunha, do sertanejo nordestino com o gaúcho (ver Os Sertões). A natureza do sul é belíssima, e certamente o cavalo foi e continua sendo um aliado fundamental para o habitante da campanha gaúcha. É muita imensidão pra percorrer, pra encher a vista e pra render belas milongas.

Mas nenhum outro personagem do sul é mais interessante do que um cara, que vive em Pedro Osório. Lavador de carros em um posto de gasolina, ex-vereador, morador de um barraco cheio de CDs, DVDs e livros, lá vive o Santana. O sujeito mais apropriado pra se chamar de curador e agitador cultural. Santana é dono de uma cultura invejável, amigo pessoal de quantos artistas importantes ele já levou pra Pedro Osório, com recursos próprios (inclusive seu salário de vereador). Nesse cast encontram-se Turíbio Santos, Kátia Teixeira, Socorro Lira, Pereira da Viola, Dércio Marques, Dani Lasalvia e por aí vai. Felizmente eu e o Ricardo Vignini podemos nos incluir no rol de amizades dessa figura incrível.

Bem, faltou realmente eu gastar um tempo falando da hospitalidade gaúcha, que é certamente das maiores que eu já vi. Onde quer que se passe somos recebidos com churrasco, chimarrão, boa prosa, e um bem querer espontâneo e comovente. Acho que só faltou o frio, que chegou logo depois que nós viemos embora. Mas a gente volta logo, se Deus quiser!

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