Um dia de músico de feira

Esse fim de semana toquei com meu velho amigo Euler Ferreira. Há alguns anos atrás tínhamos um grupo com mais o Geraldo Jr. O Orelha de Pau (nosso trio), que gravou um CD em 2002. E o Euler aceitou um convite meu pra tocar no FICA (Festival Itajubense de Cultura e Arte) que acontece todos os anos naquela cidade.

A princípio o convite era pra tocar no mercado municipal, fazer uma roda de viola. Combinei que faria acústico, sem equipamento nenhum, à moda antiga. Ao chegar lá, haviam mudado o palco para a feira, ao ar livre. O palco, aliás, era um reboque e tinha um equipamento de som disponível. Como não havíamos levado nada pra plugar os instrumentos, mandamos ver no gogó mesmo. E foi uma experiência incrível. Quem estava passando fazendo compras na feira, parava por uns instantes, depois seguia seu caminho. Numa hora tinha muita gente, outra hora quase ninguém. E muitos conhecidos apareciam.

E nós tocamos de tudo, o que desse na cabeça. Acho que todo músico ganha muito com essas coisas. Nada mais verdadeiro do que parar no meio da rua e começar a tocar pra quem estiver passando. E sem nenhum artifício, nenhuma parafernália (a que está na foto ficou só de cenografia).

Certa vez fizemos um Seminário de Viola Caipira em Guarulhos, eu e o Ricardo Vignini através do PROAC. O maior feito desse evento foi colocar alguns dos maiores ícones vivos da música caipira pra contarem sua história (devidamente registrada pelo Gaspar, esse material continua inédito). O Carreiro (da dupla Carreiro e Carreirinho) contou sobre o tempo em que eles cantavam no circo, às vezes com o microfone do narrador, mas a maioria das vezes sem nada. “E como vocês se faziam ouvir?”- perguntamos. “Ah, o pessoal ficava quietinho escutando”. E estamos falando de um circo!  Tem alguém vivo pra contar que isso já existiu! Não consigo imaginar. Isso me leva a crer que quanto maior a parafernália pras pessoas ouvirem melhor o show, mais elas ficam surdas. Paradoxal, não? Mas deixa eu aproveitar a oportunidade pra agradecer ao pessoal do FICA, que beleza isso acontecendo em Itajubá, tomara que não acabe nunca!FICA

3 thoughts on “Um dia de músico de feira

  1. Anônimo says:

    Já toquei em clubes, palcos ao ar livre, comícios de políticos, hotéis de cinco estrelas, escolas públicas, no cassino de Lambari, na beira do Rio São Francisco e do Lago de Furnas, na hidrelétrica de Itutinga, dentro do baú de caminhão, teatros, Clube dos Sargentos, festivais, festa do peão de Barretos, estúdios, formaturas, reveillons, serenatas, campos de futebol, quadras de esportes, barzinhos e tantos outros, que nem me lembro mais. Mas esta experiência de tocar em cima de uma carretinha, numa feira livre, em Itajubá, foi única! Na verdade, nada disso faz diferença, pois, como escreveu Fernando Brant, “amigo é o melhor lugar”.

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  2. Sidney says:

    Na hora tudo parece estranho e engraçado. E realmente é estranho e engraçado, mas quando se começa a tocar, não sei o que dá…vira prazer puro independente do lugar e das condições. Como diz a letra de uma música do Thiago do Espirito Santo, “só quem sabe é quem sabe tocar…” Já toquei em muitos lugares estranhos também, e só me lembro de antes de começar e depois que acabou. Se me perguntar o que me lembro do “durante” só vou lembrar mesmo do prazer de tocar… É isso. Parabéns para vc e para o Euler. A música de verdade continua viva!

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  3. Zé Helder says:

    Muito bom isso, a gente esquece qualquer perrengue porque tocar é sempre muito bom. Por isso que a gente não para nunca!

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